quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Corrupção


Um rai’ os partisse
ou os espetasse num corno,
e mais negros que um tição os visse,
que bem lhes deitava a mão
e os atirava a um forno
a modos de cozer o meu pão!

-Eh, Zé, que vai aí, compadre?
Estás mais azedo que vinagre
e vermelho que nem tomate.
Já andaste na pinga?

Qual pinga, qual carapuça,
estou pr’aqui feito em nós
ardendo por ir à fuça
de quem nos malha o destino.
Querem lá ver o pepino
desta gente sem vergonha?

- Mas o que foi agora?

‘Inda pergunta?
Está a moral defunta,
eis o que foi agora.
Não tem ouvido as notícias?
Ele é roubo descarado
disfarçado de trabalho,
é político ladrão
desviando o nosso pão,
é empresário com fífias
nas negociatas pífias
e o mais que se não vê.
E pergunta vossemecê
o que é que aqui vai?

É a moral corrupta
da façanhosa mercê,
a ética filha da puta
cega a quem pouco vê,
e pergunta vossemecê
o que foi agora?
É a Justiça que demora,
mais manca que um cabrão,
e que resulta em nada.
E nós, torpe manada,
votando na irmandade
que lhes apara a sujidade,
satisfeitos da vidinha
por tal vitória mesquinha.
Arre, que é já tradição!

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Maitê: Proença pelo avô, galo pela vacuidade

foto de Catatua Belinha - Olhares

Já aqui disse e quem me conhece sabe que assim é: não tenho mesmo pachorra para gente idiota! Por esta minha incapacidade de gerir a paciência em função do cretinismo alheio, não fazia tenção de perder tempo com a recente “novela” brasileira que ficou conhecida como, “a argolada da loura burra”, mas como me chegou, via correio electrónico, uma petição para que a senhora que dá nome à presente prosa fosse considerada persona non grata a este país, não quis deixar de dizer que não só não assino, como me parece exagerado. Primeiro, porque me estou nas tintas para tal personagem e segundo, porque a Assembleia da República (instituição a quem será enviada a dita cuja) se está, por sua vez, nas tintas para estas petições.

A senhora em questão – que me perdoem as Senhoras, mas a educação assim mo impõe – ridicularizou Portugal? Muitos dizem que sim, eu respondo que não. Porquê, perguntarão? Pois bem, a senhora limitou-se a cuspir algumas fatuidades e preconceitos sobre Portugal e demonstrou uma profunda ignorância sobre o que se propôs dissertar e/ou apontar, isto para não falar da cuspidela na fonte onde evidenciou a mais completa falta de educação e respeito por um país dito irmão e que a acolheu melhor do que a muitos dos seus mais brilhantes concidadãos.

O mais engraçado neste ridículo episódio, é que toda a gente se preocupou com o que foi mostrado no vídeo mais do que amador, toda a gente exigiu desculpas, mas ninguém pareceu notar na pouco subtil ofensa – digo pouco subtil porque a subtileza requer intelecto – feita aos portugueses nesse mesmo presumido pedido de desculpas. É que a senhora desculpa-se alegando que os portugueses não entendem humor inteligente. Vejamos, quem chama ao que foi mostrado de humor inteligente, não merece mais do que ser taxado de idiota, não vos parece?

Espero, sinceramente, que se deixem de petições caricatas mas que tenham verticalidade quando a personagem voltar a Portugal, seja para o lançamento dum livro, seja para a estreia duma peça de teatro, seja por umas simples férias. Explicando melhor: não lhe liguem pevas, ignorem-na, votem-na ao desprezo. E já agora, agradece-se aos nossos jornalistas que façam o mesmo, e não que acorram ao aeroporto de microfone e câmara em punho para novo tempo de antena, mesmo que seja para pedir explicações do que só se explica por uma inequívoca falta de decência… para dizer o mínimo.


domingo, 4 de Outubro de 2009

Floração




Julguei-te príncipe de meus passos
Mas rei te fiz do meu condado

A flor desabrochou em luz
Jogando as pétalas ao destino
E o orvalho em desatino
Dispersou-se em finos rios
De secretos desvarios
De vontades de sonhos
De futuros risonhos
E vai abrindo devagarinho
Num dormitar mansinho
Que as ternas horas seduz

E em flor te julguei príncipe de meus passos
Mas rei te fiz de meu condado
Meu filho, meu tesouro, meu viver.



Parabéns, filhote!

sábado, 26 de Setembro de 2009

Outono

"Maramais", Ge - Tentativas



Passeia-se o vento entre folhas esmaecidas
Levando-as sem cansaço por rotas imprecisas
Que se não vêem tão só se desenham
E consome-se o tempo em alvos farrapos
Quais cãs de entidade furtiva

Vagueio o olhar por aquele ramo seco
Esguio e altivo como o pardal que o assola
E estendo-o dolente ao finito horizonte
Requestando a paz que lhe pressinto
Em tons de água e absinto

Este pulsar não é mais do que impostura
Porquanto o astro maior permanece
Solene fingidor do tempo que pereceu
Mas aqueloutro tempo ainda é meu
Enquanto o mar se demorar azul

domingo, 13 de Setembro de 2009

Debater ou de bater?

We Have Kaos in the Garden




Ouvir debater propostas para um futuro que se adivinha difícil - porque o défice vai ter de ser "controlado" outra vez - ou de bater com a cabeça na parede com semelhante amostragem de egos?



Se os debates a que assistimos foram uma amostra do que nos espera, por favor, cancelem já a minha encomenda!

sábado, 29 de Agosto de 2009

Os idiotas úteis



Se há coisa para a qual não tenho a mínima pachorra, é para gente idiota. É sobranceria minha, poderão dizer. Num primeiro relance até condescendo, mas aprofundemos a idiotia a que me refiro e depois se verá.

Os mais atentos a estas coisas já terão percebido que o dislate eleitoralista logrou alcançar o estatuto de tradição. De facto, não há campanha eleitoral que não atraia os especialistas em disparates e, convenientemente, os chamados idiotas úteis. Se aos primeiros poder-se-á imputar interesse em causa própria, caso de alguns candidatos e/ou mandatários, cabendo aos eleitores a inteligência de os mandar pastar, já aos segundos não há desculpa que os valha, a eles ou a nós. Mas quem são estes idiotas úteis e o que é que os move?

Seguindo o trilho dos blogues da margem sul – a eleição que realmente me interessa porque é aqui que vivo e é aqui que tenho de lidar com a incompetência, arrogância e prepotência dum executivo camarário da CDU – é vê-los, aos idiotas úteis, proliferar como cogumelos nas caixas de comentários (acrescento porque parece que algumas pessoas não perceberam assim). Em mero aparte, a impressão que me fica quando os leio, é o de um campeonato da idiotia; eles distorcem o que lêem, manipulam toscamente a informação, desdizem-se, atropelam-se, e tudo para quê? Para propalarem o que o partido lhes soprou ao ouvido, mais prosaicamente, pespegam a célebre cassete dos ideais de Abril e outras patacoadas igualmente anedóticas quando articuladas com a realidade.

Se alguém os confronta com a mais simples prova da sua (deles) menisquese cerebral – uma forma de dizer que a sua capacidade cognitiva entrou na menopausa – ou desaparecem por uns tempos, ou enrolam-se confrangedoramente num papagueio de contradições, insultos e insinuações. Alguns, os mais magníficos exemplares de idiota útil, na ânsia de brilharem mais e, quiçá, impressionarem os acólitos, fazem um esforço sobre-humano para patentearem uma cultura que não têm, facilmente decifrável pelo uso de termos pomposos que se não coadunam com a frase na qual são empregues. Explicado à laia do Zé-povinho, usam palavras de 20 mil euros que não querem dizer o que pretendem. É ridículo, mas não deixa de ser divertido.

Assim, sem que ganhem o que quer que seja com isso, os idiotas úteis vão entalhando o caminho aos mais incautos, os que por ignorância caem nas esparrelas apresentadas, enquanto deixam os seus coprólitos espalhados pela blogosfera. Mas a democracia é isto e não há forma de os evitar. Como comecei, não tenho a mínima paciência para este tipo de aves de arribação, mas começo a fazer um esforço por me divertir com a estultícia desta espécie em franca expansão.

sábado, 22 de Agosto de 2009

De Escárnio e Maldizer


Do ranço e da naftalina


A dona Velha e seus sequazes,
Mai-los seus capatazes,
Chama a trova de incapazes.
Pois sois a praga intestina
- de sanha e vícios vorazes -
Do ranço e da naftalina.

Falam eles de modernidade,
Acessos e mobilidade,
Mas é contrária a verdade.
Pois sois a praga intestina
- e eis que matam a cidade -
Do ranço e da naftalina.

Basta já de cousas árduas,
De ciladas, de mágoas,
Na cidade das duas águas.
Pois sois a praga intestina
- prenhe de ideias fátuas -
Do ranço e da naftalina

Sabei que vós, ó excelência,
Estais posta em insolvência
Por vossa má competência.
Pois sois a praga intestina
- é que já não há paciência! -
Do ranço e da naftalina.